Josué e Antônia

18/06/2010

Josué era virgem
Antônia, imaculada
Josué era homem
Antônia seria imolada

Josué tinha um dote
Antônia agora teria um consorte
Antônia tinha medidas generosas
Josué, apenas uma – espantosa!

Josué pediu a mão de Antônia a Antônio,
o enfezado pai dela
Levou um buquê de gerânios
Dim-dom – a campainha esgoela

Painho assentiu
Cuide bem do meu neném
Amor maior nunca existiu
Vem, fêmea, povoar meu harém

Dela Josué herdou vacas a pastar
E alguns vinténs
Retribuiria com um membro cavalar
Vem, fêmea, colonizar meu harém

Pobre Josué, que não afogava o ganso, mas as mágoas,
Na birita, na cachaça, na manguaça
O priapismo o rondou tal qual uma ameaça
Há três bilhões de mulheres por aí afora
Nenhuma disposta a acasalar sua tora!

Era sempre a mesma história
Moratória! Moratória!
Ganhava no máximo uma chupada
E lá ia se aliviar na privada

Antônia era casta
Mas de ser casta já basta!
Chega de visitar seu estábulo às escondidas
Onde, tal como Midas,
Tocava seu cavalo, seu Corcel Negro
Insensível a ela como gelo
(Lá apalpava também seu grelo)

(Depois das aventuras no estábulo
Ia rezar no tabernáculo
Pedia perdão pela mácula
E ia trabalhar
Da batata extraindo a fécula)

Josué e seu membro de aço
Dariam adeus ao primeiro cabaço
Já vai tarde!
Um abraço!

Antônia de Josué pouco esperava
Que fosse cabra macho bastava
Que comesse ela
E sua especialidade
Fabulosa galinha à cabidela!
Com vontade
Incapaz de distinguir a fome
da saciedade

A torto e a direito se casaram
Ela vestia branco
Ele, honesto, franco,
vestia fraque
Ela em breve seria uma dama de vermelho
Porque ele estava à beira do ataque

Depois do sim, das juras, das promessas
Vamos direto ao que interessa
Este poema já tem doze estrofes
Peço desculpas ao leitor
Este relato é pornô soft

Saíram da capela
A cueca mela, mela
Antônia mordia os beiços
Meu amor, cuidado pra não bater o carro naqueles freixos!

No caminho, ouviram Lucinda
As cidades de Lucinda
A cartografia sentimental de Lucinda
Lake Charles, Greenville, Jackson
Se ouvissem a Lucinda sexy
Steal Your Love, Honey Bee, Come On…

Meu Deus!

Eu encerraria minhas atividades como eu-lírico
Josué e Antônia, para mim, seriam como a pedra de Sísifo
Sem a cópula, o poeta não tem encargo
Josué e Antônia seriam um fardo
Reles casal de nubentes
Mais chato que os das igrejas crentes

Para o alívio do leitor
Eles chegaram ao hotel
Nada de ‘que horror’
Não era motel
(Nem quartel)
Mas as coisas que ocorreriam naquele quarto
Seriam coisas de motel
(E de quartel)
(Dependendo do quartel)

Lá estava a alcova
A cama
As toalhas de rosto e de banho, os lençóis
Alvos, brancos, puros
É isso mesmo, não há rimas nesta estrofe
Às vezes não se pode tomar liberdades com algo tão sagrado.

Antônia, recatada,
melindrada,
Mal ficou pelada
E virou de costas
Quem visse diria que ela não gosta
Mostra, Antônia, mostra!

Josué, de príncipe viraria sapo
Príapo, Príapo, Príííííapo
(Que, aliás, de deus grego nada tinha
Seu rosto parecia ter sido talhado
Com uma machadinha.)
Tirou a cueca
Bora dar uma surra de pica nessa levada da breca?

Antônia se virou
E quem dera não tivesse se virado, não tivesse dito sim
Pobre de mim
Quem dera tivessem batido o carro nos freixos da estrada
Ironia do destino – que desatino!
Trocou a roça, a enxada
Por uma piroca
Uma enxada inchada!

Antônia viu aquilo
E exclamou:
Não tô numa sessão de Boogie Nights!
Espera só que eu vou te ler meu Bill of Rights!

Josué ficou amuado
Nada de errado
Em ser bem-dotado
Digo em alto e bom som
Sou bem-dotado!
Pensa pelo lado bom
Pelo menos não sou sado

Josué não deu trela
Queria rala-e-rola
Colchão de mola
E esfola-esfola

Josué pegou a vaselina
Oh, Antônia – vida severina! severina!
Vai ser a seco não, tá joia?
Já tô passando isso na minha jiboia
Vaselina evita atrito
Qualquer coisa dá um apito
Não é isso que vai te fazer mal
Dói bem menos que parto normal

(Nota do autor: É só comparar as duas cabeças.)

Porra, Josué,
você vai rasgar minha boceta!

Não tem problema,
podemos ter filho de proveta.

Você quer passar uma escopeta
Por uma greta
Pura treta!
Não dá só pra apertar minha teta?

Não! Tende piedade!
Meta isso na sua cabeça
Homem tem necessidades
Portanto, se ofereça
Compareça.
Obedeça.

Josué, eu posso ser filha de meeiro
Vim da roça, mas tô no século vigésimo primeiro
Isso aí é um enfado
Coisa do século retrasado

Podemos começar?

Tem remédio?

Fora a vaselina?

Não, imbecil. Tem remédio de “fazer o quê”.

Sexo, oras.

(Antônia faz cara de poucos amigos
Josué se faz de desentendido)

Para de fricote
Lua de mel não é só cheirar cangote
Você não é a última bolacha do pacote
Daqui a pouco eu te engasgo é na epiglote

Você não mete medo em mim, pamonha
Te mando pro banheiro tocar uma bronha
Não tô a fim de morder fronha
Então vê se não sonha

Mas não deu para evitar
Um tríceps aqui, outro músculo acolá
Antônia foi dominada
A fronha, antes recusada,
Virou sua camarada

Antônia, em sanha:
Isso é pra você aprender a não ser tacanha!
Queria tanto, agora não reclama!
Para de marra e abocanha!

E assim se fez.

Josué agora era Homem feito
Antônia chorava a fio
Josué a deixou só no leito
Cabra arredio, arredio

Antônia se sentiu usada
Humilhada
Ultrajada
Estuprada
Até que viu a aliança na mão
Ah, não!
Tal anuência
provavelmente invalidaria um boletim de ocorrência

Josué voltou para a alcova
Trouxe para ela um pano e uma escova
Conciliador, disse:
Meu pau tem trinta e dois, minha língua, oito
Vou usar tanto um como o outro
Média aritmética de trinta e dois e oito, quarenta, por dois, vinte
Viu? Desfez-se o acinte!

I love Lucy

04/07/2009

Real Love.

E este blogue está morto, só avisando. “Sun went down you were blown away.”

o amor é mais frio do que o word e a pílula juntos

24/02/2009

Uma das 84 visitas de ontem chegou até aqui procurando “vulva pus caroço”, uma combinação tripartite tão perigosa quanto o Pacto Tripartite. (Como compensação divina, outra veio com “o que significa beijar a mão de uma mulher?”, uma pergunta que talvez só se configure como bonita no meu mundo, isto, claro, se a resposta para ela não for algo como “sinal de respeito bem longínquo”.)

Sério, o que significa beijar a mão de uma mulher?

Para a primeira pessoa – que só imagino desapontada com o caroço, o pus e o blogue que o google a ela indicou – e para a segunda – aflita com códigos de etiqueta há muito em desuso –, a nova polícia de costumes do Word 2007 seria outro flagelo. Para mim só o passaporte levado de meu pai e a facada entre uma e outra costela levada por meu irmão num assalto em Mumbai ganhou em aflição,  e tudo isso um dia antes de irmos à Angkor Wat, no Camboja. Acordei suando às onze da manhã, foi um pesadelo bem ruim. (Sim, eu ainda tenho sonhos com viagens em família.)

Não que a nova versão do Word seja um sonho maravilhoso, mas impecável certamente é. Talvez então faça sentido que o texto escrito faça jus ao aperfeiçoado pacote Office. Na madrugada de domingo escrevia um protótipo de roteiro, em Times, sem espaçamento, uma fala seguida de outra, sem aspas, travessão ou indicação de quem está falando. A todo momento imaginei um balãozinho pipocando para me guiar: “Você por algum acaso está tentando fazer um roteiro?”

Ele trata do primeiro dia de férias de dois amigos, será filmado na UFRJ mesmo. É muito simples, pense em Ana e os outros, sem Ana nem os outros. (Por algum motivo, o roteiro de Ana e os outros, filme que vi há quatro anos e cotei como 52 em 100, é o modelo que apregoei para os meus, isso sem me lembrar de um diálogo sequer.) Queria fazer algo terno, tenro e tenaz, esta tripartite, sim, boa e sadia. Acho que ficou só um pouquinho dos três, mais engraçado do que qualquer outra coisa, ossos do ofício. Sendo apenas o esqueleto que é, me contento com os ossos.

Um deles relembra como quem não quer nada um evento desagradável na vida do outro: descobrir que a mulher de sua vida, e de outro, está na pílula.

Como a gente ficou naquela história?

Qual hist… Ah, tá. É aquilo que você sabe, a gente tava conversando, ela disse “que merda, tinha um remédio pra tomar”, eu disse “às vezes não tem problema tomar depois um tempo”, ela disse “é pílula”, eu disse “qual?”, ela não disse nada, eu disse “aaah, essa pílula”.

A Amanda, no MSN, implicou um pouquinho com o diálogo (“dizer que não tem problema em tomar um remédio depois da hora denota que ele é um irresponsável”, “até agora eu só vi neuróticas tomarem pílula na hora”, “ninguém chama pílula de remédio, que eu saiba”) e deu sua versão. Ficou assim:

“Esqueceu o quê?” “Ah, nada não” “É remédio?” “É” “Liga não. Já tomei um porre com antibiótico e não deu em nada” “Ah, mas é que esse eu não posso pular… ” Por quê?” “É pílula”

Já a Camila, também no MSN, esclareceu que a pílula nem sempre vem ao resgaste do luxo e da sedução entre quatro paredes, vindo às vezes em socorro do evento mensal entre as quatro paredes do banheiro. Argumentei com ela que seria interessante que meus personagens associassem de imediato pílula a sexo (como, desculpa, todo mundo faz), imaginando, assim, o “pior”. (Numa versão piorada do roteiro ou num sonho do meu herói, sua amada viria e diria: “Tomo só para controlar meu ciclo menstrual, virginal que sou!”)

Temos polichinelo, tétano, faça-seu-próprio-panelaço em Buenos Aires, camisinha de uva e uma mãe que engorda inexplicavelmente. Temos um amigo que consola nosso herói com um “Pensa que pelo menos a libido dela é boa. Quando chegar a sua hora você desconta”. Ademais, este energúmeno (que de energúmeno nada tem) salienta que nosso herói precisa de uma garota que vá à farmácia comprar mertiolate, não pílula.

E o que o Word 2007 tem a ver com isso?

Camisinha de uva, pílula e… é claro que completamos a tripartite com “transa”. Escrevi “transa”, batata: o Word sublinha a palavra de verde e sugere que eu a troque por “relação amorosa”. Como é? E justifica: “‘Transa’ pode ser considerado um caso de plebeísmo. Evite o uso de gírias e palavras de baixo calão em seu texto.”

Não fode, caralho!

Não fode, caralho!

Para o caso de alguém querer ler o protótipo-esqueleto de roteiro, deixe o e-mail na caixa de comentários. Estou orgulhoso do meu filho. Ele joga bola e já pega mulher.

(Amanda Meirinho, a Amanda citada acima, está de blogue novo. Não bastasse filho, carteira assinada e a prosa deliciosa costumeira, tascou “e nem por todo chá na china” no título, da belíssima música “All My Little Words” do Magnetic Fields.)

uma casa não é um lar

16/02/2009

“O arrependimento pairava sobre ele como moscas de verão.”

“Churchill ficou apocalíptico.”

“Stalin suspeitava patologicamente de todos.”

“(…) disse que se sentia como uma coruja escaldada.”

“Churchill leu um livro sobre a Índia que o deprimiu.”

“Levaram King, enigmático como uma esfinge.”

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“Nunca tinha ido ao anexo de frios do mercado Bambina.”

“O Guilherme tem uma personalidade forte.”

“Não tenho senso estético algum.”

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“Vocês estão conversando muito. Vou ter que separar vocês?”

“Lição do dia: it’s a cold, cold world.”

“Isabela vai embora: uma editora chora.”

“Marília, talk to us, miss ya, beijo, Guilherme e Isabela.”

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“Ah, que local simpático de trabalho.”

“Computador bota crase?”

“Janaína é um nome indígena.”

“Qual o nome do seu e-mail?”

“Você me ensina a fazer um @? Eu só sei fazer a.”

“Ele apaga cigarros?”

“Não, senão vão pensar que eu tive um caso com ele.”

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“Era um mundo de se comer com os dentes, um mundo de volumosas dálias e tulipas.”

“O horror dos besouros inexpressivos.”

“Janaína, envolvi as emendas que são coerentes com o português atual e cortei aquelas que não fazem sentido. Mas ainda há algumas dúvidas. Você pode dar uma olhada e ver se aceita ou não? (e ver se eu fiz alguma besteira…) Beijos, Isabela.”

“Tava saindo, chega portador (20h50) com a prova da Maria Isabela. Fiquei receoso de receber, mas assim que vi o remetente… Poderia outro receber que não eu?”

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“Olá, Guilherme. Boa tarde! Lembre-me de contar a história do motoqueiro na avenida das Américas. Há falas preciosas para o seu, o meu, o nosso roteiro. Não me deixe esquecer! Um beijo, Marília.”

“Guilherme é mesário. Fila quilométrica em colégio eleitoral em Niterói.”

“Leandro é um herói.”

“Se você fosse meu pai, né?”

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“Você prefere ‘clímax’ ou ‘orgasmo’?”

“Você tem vulva, você tem que saber.”

“Guilherme, você me diverte aqui, além de ter sido o primeiro a me dar boas-vindas na N.F. Não sei se você se lembra do livro do Pitanguy, mas eu nunca vou esquecer.”

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“Dadeco: Não me provoca senão eu corto tua piroca! Quitino: Piroca, tu? Pois eu te corto as pregas do cu! (ataca)”

“No máximo os mamilos e olhe lá.”

“Você já bolinou alguém? / “Não, nem nunca fui bolinado.”

“Sexo oral/ À meia-luz/ Num bacanal/ É perigoso // O pessoal ansioso/ abocanha como osso/ Não vê pus/ Não vê caroço // Luxo e sedução/ Em centelhas/ E cadê a atenção/ Pras manchas vermelhas?”

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“Você entende de férias?”

“Para de fumar, mãe.”

“O cara poderia jogar uma cápsula de cianureto na minha boca.”

“Coomi sentiu tamanha ternura pela filha naquele momento que achou que seu seio se encheria de leite novamente.”

“My Baby Just Cares For Me, Nina Simone, pianinho clássico no meio do caminho.”

“Adoro coisas de baixa qualidade.”

“COMO VOCÊ PERDEU SEIS ELEFANTES?!”

“Papel premiado! Vá à casa lotérica mais próxima e troque por uma bitoca do atendente.”

“Se a Adriana é dez e o Guilherme é zero, então você é sete.”

“Meu organismo trabalha enquanto eu leio, ele não tá aí de bobeira.”

“Marília, você gosta mais de mim do que eu de ti.”

“São as mulheres que você fica pegando…”

“Quem encontrar o resto de mim, favor colocar no saquinho. Ass.: conto ‘A nova Califórnia’.”

“Equilibra, Semionato, equilibra.”

“Eu não tenho hormônios.”

“Odeio pasteurizar o texto.”

“Eu não sei mais nada, Phellipe.”

“Fiquei tristão por não ter ido comer pizza cas minhas musas; fiquei felizão ca nova mesa dos estagiários; fiquei boladão cas intempéries da vida em geral. Bêjin’, G.”

“Opa, Daniele. Fui apresentar um seminário para a disciplina [e aqui o manuscrito se interrompe].”

“Maturidade, a gente vê por aqui.”

“Janaína Senna é a MUSA dos estagiários.”

“Opa, o que é isso em minhas costas? Ah sim, é uma FACA!”

“Tô em cólicas aqui.”

“Também vandalizo o interior da caixa.”

“5g de trufas brancas (…)”

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“NÃO ESQUECER O CELULAR.”

óculos retorcidos, autor retorquindo (humilhado, ultrajado!, por gostar de gilmore girls)

07/02/2009

Todo mundo diz (o comercial da Ortobom diz) que passamos um terço de nossas vidas sobre um colchão, mas ninguém diz que pessoas de óculos passam dois terços de suas vidas com óculos. Pessoas de óculos entram no banho de óculos e, quando o aguaceiro despenca chuveiro abaixo, descobrem-se momentaneamente cegas, ou ainda reconfortadas: aqui estão meus óculos.

Homens vira-e-mexe cutucam desesperadamente os bolsos de suas calças em busca da carteira que julgam para sempre perdida ou surrupiada. Homens de óculos que mantêm suas carteiras na mochila impelem novo direcionamento às mãos: seus óculos. “Onde estão meus óculos?”, perguntam-se eles, a sobrancelha arqueada e o cenho franzido em desespero. O conforto só neles se abate após percorrerem com as mãos a armação que portentosa se insinua, mesmo sendo a mesma estrutura de metal desenxabida de sempre.

Poucas coisas são mais desagradáveis para o homem que usa óculos que perdê-los. Nada é mais desagradável para o homem que usa óculos que machucá-los.

Machuquei meus óculos da maneira mais estúpida possível. À noite, de madrugada, antes de dormir o sono dos justos, pingo o colírio dos desvalidos. Para tanto, deito na cama, sobre a colcha, repouso os óculos sobre esta, pingo as gotas, geralmente erro o alvo, tiro os óculos de lá, coloco-os sobre a escrivaninha (ou sobre a televisão, ou sobre alguma folha de uma revisão de tradução freela que faço pelas últimas duas semanas), guardo o colírio, tomo água, me deito.

Na quarta-feira, não tirei meus óculos da colcha, tampouco os repousei na escrivaninha. O cotidiano é restaurador, mas pular algumas de suas etapas é perigoso pura e simplesmente.

Acordei. Tarde, meio-dia. Meio-dia! Que vida é essa? Mas antes de mais nada: onde estão meus óculos? Onde estão? Escrivaninha, não. Televisão, não. Não. Vem o estalo, ardido como a última das chibatadas. Estico minha colcha já apavorado com os segundos subsequentes à descoberta: lá estão eles, embolados na coberta.

A HASTE ESQUERDA HORRENDAMENTE RETORCIDA.

Acho que chamei pela minha mãe, mas não tenho certeza. Coloquei-os na minha cara. Lembram de Tom Cruise depois do acidente de carro em Vanilla Sky? Tomei um copo de leite, vesti uma roupa, saí desvairadamente cego (sendo que geralmente saio cegamente desvairado) pelas ruas caóticas da cidade, quase fui atropelado por uma Kombi de verduras (que, no calor do momento, por mim foi confundida com um riquixá).

Sendo uma pessoa horripilantemente horrível, dirigi meus passos à ótica mais chique da rua mais chique do bairro mais chique da cidade mais insalubre do país, acreditando piamente que uma maquininha ultramoderna (ultramoderna sobremaneira que não possui nome, sendo apenas conceitual) daria jeito. Lá fui avisado:

“Olha, é bem capaz da haste quebrar, forçar o ponto de solda é arriscado.”

“Quais são as chances disso acontecer?”

“De 90%.”

“Você faria com a mão ou existe um aparelhinho?”

“Com a mão ou com um alicate.”

Alicate? Disse “obrigado mas não, obrigado”, saí com o rabo entre as pernas. Nessa mesma ótica, aconselharam-me que os levasse para um pronto-socorro de óculos, que soldaria a armação caso viesse a se romper no processo estica-e-puxa.

Pelo jeito, a ótica mais chique da cidade me passou a perna. Esse pronto-socorro não existe, pessoal. O que existia no (próximo ao) endereço impreciso que me foi fornecido era uma loja modesta da Ótica do Povo, e para lá fui, e lá tive meus óculos consertados.

A atendente (simpática e solícita, se fosse uma aeromoça ganhava dez) alertou-me da possibilidade de a armação se despedaçar (direta e honesta, como enfermeira dos meus óculos ganhou zero). Chutei o balde, fechei os olhos e entreguei para Deus. Ela os levou de mim, pediu para que ficasse ali sentado. Os dentes rangendo, os dedos entrelaçados, as palmas das mãos suadas. Levantei-me, queria ver meus óculos, vibrar a cada movimento bem-sucedido, a cada sutura, curativo, pino, gesso, merthiolate. Ela me pediu que voltasse a meu lugar (“Acho melhor você ficar sentado.”).

Enquanto isso, conversava com um atendente, que entendeu meu pranto e minha possibilidade de luto quando citei algo nas linhas do parágrafo de abertura deste texto, sobre como passamos um terço de nossas vidas sobre um colchão, mas o dobro desta fração com óculos. Engole essa, Ortobom!

Pensando agora, quando durmo, durmo num colchão Ortobom. Quando acordado, munido de óculos estou. Isso significa que três terços ou 100% de minha vida estão submetidos ao bordão de uma marca de colchões e à possibilidade sempre sorrateira de um incidente com meus óculos.

O fato de os óculos terem sofrido o tal acidente sobre um colchão Ortobom ganha mais e mais contornos indevassáveis.

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A semana foi deliciosa. Minha prima chegou de Minas para residência em neurologia no hospital universitário da UERJ, ficará cá em casa até achar um apartamento; levei-a ao Maracanã (o bairro, não o estádio, entenda-se) para seu primeiro dia, acordando sabe Deus como na hora que geralmente durmo, cinco e meia da manhã. Seus pais, meus tios, desovaram a menina por aqui no fim de semana. Tio Paulo é, com toda razão, apavorado com a violência carioca: “Guigo, Botafogo é perigoso?”, “Guigo, o que é melhor, Catete ou Glória? Em termos de violência, digo”. Mais engraçados, e inegavelmente apropriados, são seus conselhos de segurança pessoal: “Patrícia, divida o dinheiro pelos bolsos”, “Patrícia, se alguém tiver seguindo você, corra”. Patrícia é ótima, nos damos mais do que bem, é um prazer tê-la em casa, ela inclusive enviará fotos de meu pulso com quatro verrugas em andamento para seu amigo mineiro residente em dermatologia no hospital universitário da UFRJ avaliar. Patrícia diz que devo cortar meu cabelo (para que as pessoas vejam meus olhos, nada menos) e pede para que eu me aprume a todo instante. Minha mãe adora a presença dela, e eu adoro o fato de minha mãe se distrair com a visita. “Mãe, queria que vocês me tivessem dado outro irmão, uma irmã”, disse a ela. Queria mesmo.

Além disso, o livro agridoce dos pássaros (final de fevereiro nas livrarias sob o título “Pássaros do amor e da sorte”, recomendadíssimo, desatei-me a rir e a chorar e a rir de novo) finalmente foi fechado e enviado para a gráfica depois de um mês debruçado numa revisão de tradução ambiciosa; discuti Heidegger em dois momentos numa salinha abafada da pós-graduação (a bem da verdade, mais ouvi discutirem que discuti; Heidegger é peso-pesadíssimo); tomei chopp com o Rodrigo (feliz aniversário, Rodrigo); encontrei a Juliana Lobianco nas barcas e a Camila (que agora é chamada de “tia” por pirralhos de 10 anos toda sexta-feira) no ônibus; e, finalmente, teve a Cinthia, “Almas mortas” (a óbvia genialidade de Gogol saltando aos olhos e perfurando os ouvidos só de revisitar algumas passagens do livro, lidas com entusiasmo), suco de amora e framboesa, sanduíche de salame e provolone, macchiato e Cheers (tanto o brinde como o seriado clássico).

Ela estava a meu lado quando um atendente da Saraiva do Rio Sul riu de mim, já que é uma verdade universalmente aceita que um homem solteiro, admirador de Gilmore Girls, deve estar precisando de uma coça, de um sacode e de um acorda pra vida, porra. Perguntei se poderia encomendar a sexta temporada da série (em preço promocional), e ele riu. Perguntou se ela acabou, “ela” sendo a série. Assenti, e ele riu. Agora foi a vez dele de dizer que ela acabou, “ela” sendo a caixa da sexta temporada, e ele riu ao dizê-lo. Disse que achava Gilmore insuportável, não sabia quem era pior: mãe ou filha. Sua namorada adora, e inclusive assistia a um de seus episódios enquanto esteve com ele naquele mesmo dia. Perguntou se eu estava interessado noutro seriado, “Gossip Girl, que tal?”. Dessa vez, quem riu fui eu. Disse que queria a caixa dourada de Twin Peaks. “Aaaah, agora sim.” “Tá achando o quê? Olha Cheers aqui.” (E então mostrei a ele as temporadas dois e três recém-compradas.) “Que bom que você tem um lado sério.” “Mas Gilmore Girls faz parte do meu lado sério.”

Ele riu.

contos de independência financeira

31/01/2009

“Você tá dormindo?”

“Tô”

“Tira os óculos da cara.”

“Não tô dormindo, só descansando.”

“Mas você pode dormir de lado e arrebentar a armação toda. Você vai ver o prejuízo.”

“Seu prejuízo.”

Seu prejuízo.”


“Você quer alguma coisa das Lojas Americanas?”

“Não. Espera aí. (…) Não, ninguém quer nada.”

“Tá bom.”

“Como você vai pagar por essas coisas?”

“Débito. Meu dinheiro.”

“Ah, muito bem.”


Balneário Carioca, melhor quilo de Botafogo, dezembro de 2008.

“Vocês têm um cartão de fidelidade, não é?”

“Temos sim, mas não temos mais.”

“Acabou ou acabou?”

“Não, não, os cartões só que acabaram.”

“Eu soube porque vi uma pessoa tendo o dela carimbado.”

“É, a gente costuma carimbar. Dez carimbos, 300g grátis.”

“Mas eu já comi aqui umas vinte vezes. Por que vocês não falaram do cartão?”

*

Sobre isso, com Marília, em janeiro de 2009, agora de posse do cartão:

“Por que eles têm cartão de fidelidade e não distribuem?”

“Acho que eles esperam que as pessoas se dirijam ao balcão e digam: ‘Moço, eu como aqui umas três vezes por semana, daí tava pensando se vocês têm cartão de fidelidade…’”


No banco, para resolver aquela história da microfilmagem. Conversa vai, conversa vai, conversa vai, uma resposta enviesada vem, outra atravessada vem, até que:

“Vocês têm algum folheto que explique exatamente como funcionam os fundos de renda fixa?”

“Não, mas a internet explica.”

“É que poupança rende tão pouco. Um milk-shake do Bob’s por mês.”

“Mas é mais seguro.”

“Mas eu tô aqui exatamente por causa do congelamento dos rendimentos da poupança no governo Collor.”


“Cruze o cheque, Guilherme! Cruze o cheque.”

*

microfilmagem, beijo na mão, close no leão

21/01/2009

De Gilmore Girls a Negócio arriscado, uma revoada de cautionary tales indica que chamar os mais chegados para um regabofe discreto com Jens Lekman e a Invasão Sueca, que de impetuoso só tem a palavra “invasão”, acaba em putas estelionatárias que acabam com você e em Dean e Jess apunhalando um ao outro com punhos que acabam com Rory.

Conversava na Nova Fronteira com a Marília, outra estagiária e pessoa única, e a menina, ao saber que a casa estaria vazia, vazia para o fim-de-semana, logo disse: “Festa.”

Um vizinho conversava comigo no corredor, e, ao saber que a casa estaria vazia, desimpedida, no fim-de-semana, disse prontamente: “Vai chamar os amigos?”

Pior que eu pensei em fazê-lo. Sondando meu pai, sempre com uma planilha de gastos na cara, quando ele tem tempo para gastar alguma coisa?, perguntei se poderia trazer gente para cá no sábado. (Não, eu não sou idiota e, não, eu não sinto que devo satisfações. Estava em busca da emoção da recusa, do entusiasmo dos argumentos, da dureza dos contra-argumentos e, finalmente, do assentir mágico: yes, you can.) “Mas justamente quando ninguém estará em casa?”, disse ele, rindo entre os dentes. Quando seu pai ri entre os dentes, é batata, e é também sinal verde.

Só podia ser verde.  Nunca gostei de bancar o anfitrião, uma de minhas lembranças mais remotas me situa no meu aniversário de 7 anos, quando morava no Rio. O tema era Bart Simpson (Bart Simpson de skate, mais precisamente), o pai era Juarez, e o filho foi abordado por este último, que lhe disse: “Guilherme, você tem que dar atenção para todo mundo.”

Ele se referia, óbvio,  à família. Até hoje, “Guilherme, você pode continuar lendo o seu livro, mas tem como ler o seu livro no cômodo onde sua avó está?”

Festa sem família significa, ao fim e ao cabo, que eu não tenho que interagir com meus amigos sob olhar paterno e materno, que sairiam da experiência desnorteados, à meu-filho-é-assim?

(Minha mãe inutilmente se apega às ligações que recebo no telefone fixo como um modo de testar minhas companhias. “Ele não está, QUEM É?”, “Guilherme, X. ligou para você, QUEM É ESSE?”. Ela também não perde a oportunidade de discutir meus problemas com os outros, algo que sempre encapsula coisas como: Ele é difícil mesmo, Essa história de deixar o celular sempre desligado me incomoda tanto e Obrigado por você aguentá-lo.)

(Como prova de idoneidade, no MSN, o parágrafo acima foi recepcionado com: “Ela falou comigo assim mesmo da outra vez. Divertidíssimo.”)

Então é estranho que eu me apegue a ser justamente o que eu seria com a casa cheia. Com a casa vazia, mesma coisa. As pessoas chegariam, os tais amigos chegados, e provavelmente teriam de ficar descalços, certamente usariam porta-copos. Quartos seriam vedados, biblioteca, medievalmente queimada, dvdteca, em combate ao anacronismo, empurrada para debaixo da cama. O banheiro usado por todos seria o de serviço.

Lembra das luzinhas vermelhas em filmes de roubo de obras-de-arte e outras tantas obras-de-Deus? Assim funciona minha casa: movimente-se com cuidado, ei, sem impressões digitais na mesa de centro.

Mais do que reconstruir uma casa depois do vendaval, onde as pessoas vão dormir, caso precisem? Que roupa de cama daria, quem lavaria no dia seguinte? Escovariam os dentes com os dedos? Ririam se eu dissesse: “Eu não tenho escova sobrando. Dá pra ser com o dedo de vocês mesmo?” ou ainda “Vocês precisam de um pijama?” O que essa gente toma no café da manhã?

Joni Mitchell está comigo nessa. Minha casa não é o Mermaid Cafe, Niterói não é “a tourist town”, e os copos de cá não seriam quebrados num brinde. O que dar uma festa faria para meu curriculum pessoal só está no gibi de um Crumb da vida.

Também, pudera! Não existiram meios para uma festa. Existe uma Leilane em minha vida, e a ela jurei total fidelidade.

A âncora do RJTV faz caras que sua cara não permite e bocas que sua boca tampouco. Deseja uma noite de paz aos cariocas franzindo (expressivamente) o cenho. Marília diz que ela tem a cara das mães assombradas pela possibilidade de sua prole de 7 ou 8 anos ser mais inteligente do que a própria.

A sistematização empírica dos dados coletados em 2004 é tão desagradável quanto parece, mas menos sofisticada. O Google Docs é de grande valia, mas entremeados às notícias a serem transcritas, é possível que vejamos Mme. Leilane conversando no telão do estúdio com o chefe dos bombeiros de alguma unidade carioca (recuso-me a acreditar que ele seja o chefe dos bombeiros cariocas). Quatro subordinados estão atrás, em posição de sentido. Leilane, preocupada com as condições meteorológicas da cidade (um temporal naquele dia, previsão de mais aguaceira para o dia seguinte, casas desabadas, e o tal cenho desoladamente franzido), pergunta se os banhistas devem evitar o mar na manhã do dia seguinte. O bombeiro, visível e especialmente audivelmente alterado, responde: “MAR?! MÁ NEM PENSAR EM MAR. FIQUEM FORA DO MAR!”

(Passei, finalmente, para as notícias do RJTV de 1984, e não me desapontei: entre as matérias que faziam figuração entre as que eu deveria analisar, estava a de um menino, Rodrigo, que teve a mão ferida, quase decepada, por um leão. A chamada: “Um leão ataca uma criança na Tijuca.” Segue com: “É nesta casa que vive Java, o leão tem um ano e meio (…)  e, no terraço, passa o dias comendo canja de galinha misturada com legumes.” A dona do leão, dona Ivone, é entrevistada, e há de se desfazer toda a mística “criadora-treinadora” que envolvia a mulher. Uma simples dona-de-casa! A repórter: “Por que a senhora tem um leão em casa, é por segurança ou por amor aos animais?” Resposta: “Agora talvez até já seja segurança [N.A.: o Rio circa 1984 já era um perigo], mas foi meu marido que me deu, eu gosto muito de bicho, e acho que todo bicho pode ser manso.” Daí, Rodrigo aparece, olhar vidrado, braço com enorme bandagem que cobre 50 pontos. Uma única pergunta é feita: “Você ainda quer ver o leão?” O menino faz uma ligeira pausa, como que perplexo pela pergunta, e grita um “não”. Um corte brusco nos entrega um close no bicho. Quanta rudeza, ou ainda, o surgimento da mais impactante cautionary tale para rapazinhos?)

Após me dedicar diligentemente ao serviço (e não terminá-lo), saí de casa. Fui tirar um extrato no banco e comer alguma coisa na rua. Nada de importante ocorreu na segunda atividade, a torrada petrópolis com geléia estava excepcional, embora previsível. Na primeira, também nada de especial sucedeu, exceto que só escrevo isto (tudo) para contar isto (em breve).  (E o wordpress me informa que já são 840 palavras até aqui. Eu não planejava falar do comportamento de minha mãe ao telefone, ou ainda inquirir retoricamente a respeito da necessidade de escova de dente e pijama por uma pessoa, no afterparty, que mal leva em consideração a idéia de tirar o aftertaste da boca.)

No banco, no extrato, preto-no-amarelo, surgem como preto-no-branco cobranças concernentes a duas microfilmagens. Total de 12 reais. Não sabia o que era microfilmagem. Agora sei. (E é tão interessante essa história, e eu estava preparado para contá-la aqui, até acabar me distraindo com a não-festa e com o close no leão.) Também lá, uma velhinha teimava porque teimava permanecer empacada no mesmo terminal, o cartão não entrava direito, as mãos tremiam, a tela espremia “não foi possível ler seu cartão, tente novamente”, ela tentava, as mãos tremiam. Eu disse: “Por que você não tenta outro terminal?” Ela foi, eu lá, encucado com a microfilmagem, ela volta, “posso pegar sua mão um instantinho?”, “?”, ela beija a minha mão: “Deu certo, obrigada.” Um agradecimento, talvez, pela mão amiga.

Espero mais “Dá uma mãozinha aqui, amigo” e menos “Dá a sua mãozinha aqui, amigo” em 2009.

rory gilmore got laid

02/09/2008

god bless the child that’s got his own.


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