o amor é mais frio do que o word e a pílula juntos

Uma das 84 visitas de ontem chegou até aqui procurando “vulva pus caroço”, uma combinação tripartite tão perigosa quanto o Pacto Tripartite. (Como compensação divina, outra veio com “o que significa beijar a mão de uma mulher?”, uma pergunta que talvez só se configure como bonita no meu mundo, isto, claro, se a resposta para ela não for algo como “sinal de respeito bem longínquo”.)

Sério, o que significa beijar a mão de uma mulher?

Para a primeira pessoa – que só imagino desapontada com o caroço, o pus e o blogue que o google a ela indicou – e para a segunda – aflita com códigos de etiqueta há muito em desuso –, a nova polícia de costumes do Word 2007 seria outro flagelo. Para mim só o passaporte levado de meu pai e a facada entre uma e outra costela levada por meu irmão num assalto em Mumbai ganhou em aflição,  e tudo isso um dia antes de irmos à Angkor Wat, no Camboja. Acordei suando às onze da manhã, foi um pesadelo bem ruim. (Sim, eu ainda tenho sonhos com viagens em família.)

Não que a nova versão do Word seja um sonho maravilhoso, mas impecável certamente é. Talvez então faça sentido que o texto escrito faça jus ao aperfeiçoado pacote Office. Na madrugada de domingo escrevia um protótipo de roteiro, em Times, sem espaçamento, uma fala seguida de outra, sem aspas, travessão ou indicação de quem está falando. A todo momento imaginei um balãozinho pipocando para me guiar: “Você por algum acaso está tentando fazer um roteiro?”

Ele trata do primeiro dia de férias de dois amigos, será filmado na UFRJ mesmo. É muito simples, pense em Ana e os outros, sem Ana nem os outros. (Por algum motivo, o roteiro de Ana e os outros, filme que vi há quatro anos e cotei como 52 em 100, é o modelo que apregoei para os meus, isso sem me lembrar de um diálogo sequer.) Queria fazer algo terno, tenro e tenaz, esta tripartite, sim, boa e sadia. Acho que ficou só um pouquinho dos três, mais engraçado do que qualquer outra coisa, ossos do ofício. Sendo apenas o esqueleto que é, me contento com os ossos.

Um deles relembra como quem não quer nada um evento desagradável na vida do outro: descobrir que a mulher de sua vida, e de outro, está na pílula.

Como a gente ficou naquela história?

Qual hist… Ah, tá. É aquilo que você sabe, a gente tava conversando, ela disse “que merda, tinha um remédio pra tomar”, eu disse “às vezes não tem problema tomar depois um tempo”, ela disse “é pílula”, eu disse “qual?”, ela não disse nada, eu disse “aaah, essa pílula”.

A Amanda, no MSN, implicou um pouquinho com o diálogo (“dizer que não tem problema em tomar um remédio depois da hora denota que ele é um irresponsável”, “até agora eu só vi neuróticas tomarem pílula na hora”, “ninguém chama pílula de remédio, que eu saiba”) e deu sua versão. Ficou assim:

“Esqueceu o quê?” “Ah, nada não” “É remédio?” “É” “Liga não. Já tomei um porre com antibiótico e não deu em nada” “Ah, mas é que esse eu não posso pular… ” Por quê?” “É pílula”

Já a Camila, também no MSN, esclareceu que a pílula nem sempre vem ao resgaste do luxo e da sedução entre quatro paredes, vindo às vezes em socorro do evento mensal entre as quatro paredes do banheiro. Argumentei com ela que seria interessante que meus personagens associassem de imediato pílula a sexo (como, desculpa, todo mundo faz), imaginando, assim, o “pior”. (Numa versão piorada do roteiro ou num sonho do meu herói, sua amada viria e diria: “Tomo só para controlar meu ciclo menstrual, virginal que sou!”)

Temos polichinelo, tétano, faça-seu-próprio-panelaço em Buenos Aires, camisinha de uva e uma mãe que engorda inexplicavelmente. Temos um amigo que consola nosso herói com um “Pensa que pelo menos a libido dela é boa. Quando chegar a sua hora você desconta”. Ademais, este energúmeno (que de energúmeno nada tem) salienta que nosso herói precisa de uma garota que vá à farmácia comprar mertiolate, não pílula.

E o que o Word 2007 tem a ver com isso?

Camisinha de uva, pílula e… é claro que completamos a tripartite com “transa”. Escrevi “transa”, batata: o Word sublinha a palavra de verde e sugere que eu a troque por “relação amorosa”. Como é? E justifica: “‘Transa’ pode ser considerado um caso de plebeísmo. Evite o uso de gírias e palavras de baixo calão em seu texto.”

Não fode, caralho!

Não fode, caralho!

Para o caso de alguém querer ler o protótipo-esqueleto de roteiro, deixe o e-mail na caixa de comentários. Estou orgulhoso do meu filho. Ele joga bola e já pega mulher.

(Amanda Meirinho, a Amanda citada acima, está de blogue novo. Não bastasse filho, carteira assinada e a prosa deliciosa costumeira, tascou “e nem por todo chá na china” no título, da belíssima música “All My Little Words” do Magnetic Fields.)

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5 Respostas para “o amor é mais frio do que o word e a pílula juntos”

  1. isabela Disse:

    conheço bem esse diálogo da pílula

  2. isabela Disse:

    (acho que tétano deveria tagado em todos os seus posts, olhe o valor simbólico)

  3. guilherme semionato Disse:

    pior que também acho. preciso dessa vacina. depois dela vou direto pruma trilha hardcore, mão na terra, joelho ralado na pedra, escoriação na cabeça fruto de queda dum cipó.

    essa foi a melhor história que você me deu, isabela. valeu.

  4. amanda Disse:

    no nada brilhante “era uma vez dois verões”, chico descobriu que rosa não estava grávida quando viu aquele pedacinho da cartela da pílula que fica de fora quando você tira o compimido dali.

    tão sutil que ele teve que repetir a “descoberta” alguns takes depois.

  5. juliana Disse:

    adorei o jatinho, o comentario de que fio dental é melhor que palito de dente, xuxa, pacote de academia com polichinelo. é ótimo, divertidissimo, todos seus personagens são você (e diferentes um dos outros, o que é incrivel), não é justo. deixe um pouco pro resto do mundo.

    nao sei pq voce tá pegando no pé do humor. é delicinha, nao tira nao.

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